Nietzsche, por que você escreve?
May 31, 2006“Pois não conheço outra forma de controlar meus pensamentos” (A Gaia Ciência)
“Pois não conheço outra forma de controlar meus pensamentos” (A Gaia Ciência)
A Famosa Indesejada das Gentes
A Morte chamou. Zeferina foi. Antes de partir, deixou 109 contos de réis, devidamente embalados num pacote do Super Santa Clara, debaixo do colchão. Clemência infartou quando viu o dinheiro. Deixava a casa pela segunda vez em menos de 24 horas a Morte. No dia seguinte, Rubens viu as tias veladas juntas. Baforou seu charuto e enrolou-se no cachecol bordô. Estava frio.
A vida passa em F.F.
Parreira Convocou Cris.
Dispois da Copa nóis pensa u qui fazê com o otro PCC.
Sabemos que é a alma que sente quando, mesmo por trás de um sorriso, é a tristeza quem tem lugar. Mesmo quando dizemos muito obrigado, queríamos gritar socorro. Mesmo quando temos todo o necessário para a aurora, em verdade somos tempestade.
Deus, prive-me desta angústia e me dê um fim glorioso, épico. Mas mereço? Sou digno de epitáfio célebre? Caiam sobre mim todos os tormentos do covarde, do herói fracassado. Morra de dor minha alma, sofra as abjurações de um fim desvalido.
Porque tive de falar e calei.
Porque venci e me senti um desafortunado.
Porque vi a verdade e tive medo.
Porque eu pude e fui medíocre.
Porque minha carne se regozijou e minha alma pranteou.
Com as mãos sujas de sangue é mais fácil negociar.
O estranho hábito de escrever em blogs.
Em atitude de extrema coragem e respeito ao seu leitor, o blog Culto ao Nada resolveu ignorar a proibição expedida pelo Ministério da Verdade e publica na íntegra a coluna de Sidney Srbjnovic que deveria ter sido publicada há duas semanas.
O falso nível de escolaridade brasileiro
Quem disse que o brasileiro é um povo escolado? Desde o governo FHC, o número de pessoas que passou ou ainda passa pelo ensino superior aumentou consideravelmente. Mas isso não se refletiu na qualidade da educação do brasileiro. Com faculdades literalmente caindo aos pedaços, que oferecem turnos da madrugada, que funcionam dentro de cinemas após a última sessão da noite e com outras barbaridades, não é possível construir um cidadão de bem, realmente formado.
Tudo começou quando FHC, escravo do FMI, necessitava desesperadamente mais empréstimos. Uma das obrigações impostas pelos facínoras foi a de que o número de pessoas formadas deveria aumentar consideravelmente nos próximos anos. Pacto feito, mãos à obra. Primeira medida: acabar com os cursos técnicos de nível secundário, responsáveis pela geração de milhares empregos no país. Assim, que quisesse qualificar-se, deveria cursar uma faculdade ou cursar um técnico apenas após o Ensino Médio (antigo segundo grau). Segunda medida: “qualificar” o maior número possível de estudantes para cursar uma faculdade. Como? Fácil. Aumentar escandalosamente o número de supletivos de primeiro e segundo graus. Assim, se você tem 44 anos, largou a escola na 4ª série do Ensino Fundamental e quer cursar o Ensino Superior, nenhum problema. Em seis meses você conclui o supletivo das primeiras séries da escola. Em outros seis meses você conclui os três anos do Ensino Médio. Por fim, a última medida do governo. Todos devidamente formados nos primeiro e segundo graus, qual faculdade absorveria toda essa massa humana? A solução foi facilitar a abertura de faculdades pelo Brasil.
Hoje, qualquer pessoa pode abrir uma faculdade. Se for na área de humanas, aquelas que não precisam de laboratórios, melhor ainda. Compre um quadro-negro, meia dúzia de carteiras de braço e abra sua faculdade de Administração, ou de Ciências Contábeis. Alugue o cinema do bairro por 6 horas, todas as noites. Contrate como professores a mão-de-obra falha que o mercado não absorveu e faça o turno da madrugada do seu curso de Turismo. Assim que o último espectador deixar a projeção de Instinto Selvagem 2, toque o sinal. Inicia-se mais um dia (ou madrugada) de estudos. “Novidade imperdível. Para você que não tem tempo para estudar durante o dia, as Faculdades Sidney oferecem o curso de Filosofia no turno da madrugada. Aulas em poltronas confortáveis e projetadas no telão. Diploma reconhecido pelo MEC, em apenas 2 anos”. Parece brincadeira, mas acontece.
Já estamos colhendo o resultado disso tudo. Com milhares de pessoas sendo vomitadas no mercado a cada semestre letivo, não há emprego, logicamente, para todas. Por isso é normal vermos enfermeiras formadas trabalhando no balcão da panificadora da esquina, ou pedagogos formados trabalhando como operadores de telemarketing. Quando o insistente formado não abre mão de trabalhar em sua área e não consegue colocação no mercado, o caminho mais natural é virar empregado de pessoas medíocres, como professor de alunos medíocres, em faculdades medíocres como ele próprio. Assim o ciclo prossegue.

Sidney Srbjnovic, 47, é colunista do blog Culto ao Nada. É escritor, ensaísta e articulista. Já foi redator do jornal O Globo e diretor das revistas Acorde Jazz, Personas e Art Deco.
Uma ilusão pode durar segundos. Pode durar anos. Mas não engana o coração. Ainda mais quando o dono do coração não se deixou enganar desde o princípio. Mesmo assim a ilusão existe.
É… Mais um.